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Relato de Experiências

Page history last edited by chainemello@... 2 years, 10 months ago

 

Experiências com Inclusão

 

Relutei a dar início a esse artigo, pois não queria ser ofensiva com pessoas e instituições. A começar pela minha experiência ao tratar com crianças com necessidades especiais, fui colocada diante desta situação, por imposição do Estado, sem qualquer preparo ou meios. Onde restaram apenas eu e uma criança precisando de atendimento. Foram experiências frustrantes, pois tanto eu como as crianças poderíamos ter enriquecido o processo de ensino e aprendizagem, se tivéssemos recebido algo além do mero meio físico: a sala de aula. Sendo que esta não é adaptada às suas necessidades. Nesta relação professor-Estado-aluno, o Estado omitisse de suas obrigações passando a inteira responsabilidade para os outros dois participantes.

Ao abordar o assunto ao nível de universidade volto a deparar-me com as mesmas inquietações. Parece-me que na abordagem inicial o assunto não está sendo tratado com a devida seriedade. Analisando o planejamento percebi que os conteúdos mais importantes, aqueles que me permitirão ter um embasamento teórico para tratar do assunto, só serão estudados nas últimas etapas.

Nessa primeira fase o debate parece-me não enriquecer na solução do problema. Em minha opinião, sem querer gerar conflito, os relatos, em sua maioria, tratam a questão da inclusão de alunos com necessidade especial de forma romantizada, bem aquém da realidade vivida nas escolas. Vivências essas que são perceptíveis nas lamúrias de todos os envolvidos, professores, pais, alunos, diretores, orientadores escolares, enfim toda a comunidade escolar, que vê o sofrimento para a adaptação desses alunos numa sociedade que não está preparada para atendê-los. É louvável o esforço dos colegas nesta luta desigual, mas tratar do tema como algo idealizado e solucionado não vai atender as reais necessidades destas crianças e todos os envolvidos, novamente tirando do Estado a responsabilidade e negando o nosso despreparo de ensinar e lidar com esta situação, desobrigando o profissional que procurou dar o melhor de si. O nosso melhor, por mais bem intencionado que seja, nada será além de um paliativo se não estivermos habilitados e assessorados (prédios e materiais escolares adaptados, fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, etc.)

Feitas essas ressalvas, sigo com a proposta do trabalho, fazendo meu relato.

 

 

Há alguns anos deparei-me na sala de aula com uma criança surda. Essa aluna chegou à escola após o início do ano letivo. Ela era criada pela avó, que ao se apresentar e apresentar a criança para mim se quer citou que a menina era surda. Depois de uns dias chamei a avó para saber mais sobre a criança. Ela já chegou receosa e relatou que a menina não brincava com outras crianças, costumava brincar apenas com as primas e manter contato somente com elas e a avó e em nenhum momento falou sobre a deficiência da criança. Nesse momento comentei que a criança não escutava e não falava. A avó negou dizia que em casa ela era “normal”. E foi logo recuando dizendo que ela não era a mãe da criança, que essa havia sumido e era prostituta, tendo tido vários filhos e os deixados para ela criar. Procurei a orientadora escolar, coloquei essa situação falei sobre a importância da interferência e auxilio da escola, chamamos novamente a responsável, solicitamos que ela procurasse atendimento médico, para descobrirmos qual o grau de surdez que a menina tinha. Explicamos que se houve um encaminhamento pela escola seria mais fácil, mesmo assim a avó não quis se comprometer, ao contrário, a aluna começou a faltar e faltar, com isso não estabelecia vínculos, nem avançava no processo de aprendizagem. Todas as vezes que a avó ia à escola eu a procurava para conversar, ela começou a me evitar e dizer que só mandava a menina para a escola, porque se não mandasse o Conselho Tutelar destituiria a guarda de sua neta. A escola abandonou o caso, restou a mim o papel de tentar auxiliar essa criança, resolvi fazer curso de Libras, mas não adiantou muito a menina faltava muito e aos poucos acabou evadindo. No outro ano, estava num barzinho em Porto Alegre, à noite, quando uma criança franzina, maltrapilha, bateu no meu braço e oferecendo balas, ao me virar deparei-me com aquela mesma menina que há algum tempo tentei auxiliar, sem sucesso. Relatei o caso à orientadora escolar da escola, que “disse” que encaminhou o caso ao conselho tutelar, não tendo havido retorno do caso.

 

Em breve estarei postando outras experiências!

Comments (1)

Simone Ramminger said

at 1:03 pm on May 12, 2009

Chaine sabemos que é necessário que o poder público, escola e família repensem o sentido da inclusão para que realmente aconteça uma educação inclusiva. É necessário que a legislação que envolve a educação inclusiva seja melhor estudada, planejada e estruturada a fim de que se faça uma reflexão mais crítica sobre o que é a inclusão e os aspectos que devem ser contemplados para promovê-la, de modo que todos tenham acesso. Receber alunos com necessidades educativas especiais no ensino regular demanda uma série de mudanças na escola, como a flexibilização do currículo por intermédio de adaptações e novas práticas que facilitem a aprendizagem, a revisão de posturas e conceitos, bem como a previsão do atendimento educacional especializado, a fim de atender às necessidades educativas especiais dos alunos. Mas o que ainda vemos são escolas que continuam, na sua maioria, sem recursos materiais e humanos para poder implementar a inclusão. Deve ter sido muito triste para ti ver a tua ex aluna descuidada, na rua vendendo balas. Infelizmente nem sempre podemos fazer tudo o que gostaríamos por nossos alunos, ainda mais quando a família não assume suas responsabilidades.
Na revista nova escola tem uma reportagem sobre alunos surdos, caso te interesse: http://revistaescola.abril.com.br/inclusao/educacao-especial/falar-maos-432193.shtml
O que queres dizer quando referes: "Relutei a dar início a esse artigo, pois não queria ser ofensiva com pessoas e instituições."?
Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE

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